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Blogs - Marcelo Alonso

“Copo meio cheio” do Brasil no UFC em 2019

A pouco mais de um mês para o fim do ano, com apenas mais três edições do UFC por acontecer, me antecipo usando este espaço para fazer uma análise sobre a participação brasuca no evento este ano. Tenho acompanhado um clima de pessimismo por parte dos fãs nas mídias sociais, algo que pode ser considerado até natural após um UFC no Brasil com uma média de vitórias muito aquém do que estamos acostumados (três vitórias e quatro derrotas), o que, aliás, acabou piorando o placar do “esquadrão brasileiro” contra o resto do mundo (63 x 76) em 2019.

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Soma-se a isso o fato de o Brasil ter estado presente em cinco disputas de cinturão este ano, tendo vencido duas (Amanda x Holm e Jéssica x Namajunas) e perdido três (Marreta x Jones, Marlon x Cejudo e Jéssica x Zhang).

A primeira vista o quadro parece negativo, mas se colocarmos nossas emoções de lado fazendo uma análise objetiva dos fatos, podemos reconhecer o lado “meio cheio” deste copo.

Seis disputas de cinturão em 2019

Comecemos pelo quesito disputas de cinturão. Caso Amanda Nunes confirme seu favoritismo e vença Germaine de Randamie no UFC 245 (14 de dezembro em Las Vegas), mantendo o cinturão peso-galo feminino, terminaremos o ano com três vitórias e três derrotas em disputas de título.

Se levarmos em conta a luta antológica que Marreta fez com Jon Jones, considerado por muitos o maior lutador de todos os tempos, e o altíssimo nível técnico dos três rounds da disputa entre Marlon Moraes contra o único campeão olímpico da história do UFC, Henry Cejudo, não faz sentido depreciarmos nossos “contenders” em 2019.

Um outro ponto que chama minha atenção é o fato de não termos nenhum dos ídolos da velha guarda, que continuam em atuação, nestas disputas. Jéssica, Marreta, Amanda e Marlon são frutos da renovação do MMA nacional, que continua a todo vapor.

34% do plantel entre os 15 melhores

E a maior prova desta renovação é a farta presença brasileira nos rankings de todas as 12 categorias do UFC. Hoje o Brasil tem exatos 100 atletas no plantel do UFC, sendo que 34 deles encontram-se nos rankings (Top 15) de suas categorias. Isso significa que 34% dos brasileiros integram a elite de suas divisões. São 5 no peso mosca; 3 no galo; 2 no pena; 2 no leve; 4 no meio-médio; 3 no médio; 3 no meio-pesado; 2 no pesado. Já nas categorias femininas temos 4 no palha; 2 no mosca; 3 no galo e 1 no pena (não há ranking, mas a campeã é Amanda Nunes).

E se levarmos em consideração o posicionamento no ranking, o ano de 2020 tem tudo para repetir a farta presença brasileira na disputa de títulos. Número 1 do ranking dos médios, Paulo Borrachinha já carimbou sua chance. Basta se recuperar da cirurgia no bíceps para ter sua luta com Adesanya marcada em torno de abril. Primeiro do ranking dos meio-pesados, Thiago Marreta também se recupera de contusão e, quando voltar, provavelmente só dependerá dele mesmo para conseguir uma revanche com Jones.

No peso-palha feminino, Jéssica Bate Estaca, que perdeu o cinturão para Zhang Weili, continua sendo a primeira do ranking e, certamente, com mais uma vitória, conquistará uma chance de lutar pela cinta novamente, nesta que é uma das categorias mais disputadas e imprevisíveis do UFC. A julgar pelo alto nível das Top 4, fica até difícil fazer previsões. Mas tudo leva a crer que a brasileira lute mais uma vez e, caso vença, faça uma revanche com Zhang, Joanna (#4), Namajunas (#2), ou lute pela primeira vez com a duríssima wrestler Tatiana Suarez (#3).

Oito com chances de disputar cinturão em 2020

Outra brasileira com chances reais de lutar pelo cinturão é Ketlen Vieira. Número 2 do ranking dos galos, a amazonense está logo atrás de Germaine de Randamie. Se vencer Irene Aldana (#10) no UFC 245, provavelmente se credenciará para enfrentar a campeã, que será definida na mesma noite na revanche entre Amanda Nunes e Germaine de Randamie.

Outra divisão que será definida neste UFC 245 é o peso-galo masculino. Se José Aldo conseguir estrear na divisão vencendo o número 1 do ranking, Marlon Moraes, certamente terá a chance imediata de lutar pelo cinturão com Henry Cejudo. Caso Marlon vença, provavelmente tenha que fazer mais uma luta.

E as possibilidades não terminam por aí. No peso-mosca, categoria com maior presença brasileira entre os Top 15 (são 5), tudo indica que o 3º do ranking, Deiveson Figueiredo (6 vitórias em 7 lutas), lutará com Joseph Benavidez ainda no primeiro bimestre para definir quem disputará o título com o campeão Henry Cejudo. Uma luta que, dependendo do tempo que Cejudo demore para voltar, poderá valer até o cinturão interino da divisão. Viviane Araújo, que estreou em 2019, também poderá carimbar um disputa de cinturão caso vença Jéssica Eye (2ª dos moscas) no UFC 245.

Ou seja, apesar de toda onda de pessimismo, a verdade é que o Brasil hoje tem oito lutadores com chances reais de disputarem o cinturão em seis categorias. Paulo Borrachinha, já a curto prazo e os outros seis, teoricamente, só precisariam vencer seus próximos combates para praticamente carimbarem o title shot.

O esporte muito além dos cinturões

Apesar das várias possibilidade de vermos o Brasil disputando cinturões em 2020, não custa lembrar que hoje existem quase 600 lutadores de todas as nacionalidades no plantel do UFC. Tente lembrar quantas lutas emocionantes você viu este ano. Quantas noites teve dificuldades de dormir tamanha a injeção de adrenalina proporcionada por uma ou mais lutas de um card do UFC. Provavelmente boa parte destas lutas foram disputadas em três rounds, sem títulos em jogo. Ou seja, este esporte não é feito só de disputas de cinturão. Sendo assim, vale lembrar que mesmo sem chances imediatas de título, existe hoje farta mão de obra brasileira capaz de produzir altas doses de entretenimento para os fãs em todas as divisões.

No time da velha guarda, por exemplo, temos uma tropa de elite que ainda tem dado muito trabalho no topo de suas categorias. Nomes como Demian Maia, Rafael dos Anjos, Ronaldo Jacaré, Junior Cigano, Glover Teixeira, Anderson Silva e Fabrício Werdum, que deve voltar de suspensão ainda este ano.

Tem ainda os ótimos valores da nova geração que estrearam com o pé na porta, já conquistando posições em seus rankings com apenas duas ou três lutas, como Viviane Araújo, Amanda Ribas, Augusto Sakai e Rogério Bontorin. Não podemos esquecer também daqueles que sofreram derrotas em 2019, mas continuam entre os mais respeitados de suas divisões, como Johnny Walker, Vicente Luque, Elizeu Capoeira, Livia Souza, Ricardo Carcacinha, Pedro Munhoz, Renato Moicano, Kron Gracie, Jussier Formiga, Jennifer Maia, Davi Ramos e Antonio Cara de Sapato.

Tem também aqueles que seguiram o exemplo de Thiago Marreta e deram a volta por cima numa nova categoria, como Charles do Bronx e Gilbert Burns; e ainda aqueles, que mesmo fora da elite dos Top 15, são constantemente evitados pelos ranqueados, dando um tremendo trabalho para seus empresários, como Raoni Barcelos, Claudio Hannibal, Diego Ferreira, Léo Santos e Rodolfo Vieira.

Obviamente temos também dezenas de brasileiros que tiveram oportunidades mas se mostraram claramente aquém do nível do técnico do maior evento do mundo e acabaram demitidos. Nada mais normal. Por isso nem estas demissões podem ser avaliadas como negativas, até porque a média de brasileiros no plantel do UFC, que se mantinha estável (entre 80 e 90) nos últimos 10 anos, pela primeira vez chegou a 100 contratados, o que significa que nosso MMA nunca foi tão valorizado no maior evento do mundo e mais  talentos que têm se destacado em eventos nacionais serão contratados para suprir este plantel.

Indiscutivelmente, o MMA brasileiro vive um momento de renovação e é natural que o fã espere do plantel atual conquistas à altura da geração de ouro de Minotauro, Belfort, Wanderlei, Shogun, Aldo e Anderson. Mas há de se ter paciência e, acima de tudo, entender que ainda não há motivos para sobressaltos. Como vimos acima, os resultados deste ano mostraram que o Brasil continua sendo a segunda potência do esporte com sobras e, se o fã tiver paciência e aprender a apoiar seus lutadores também nos momentos de adversidade, este copo tem tudo para continuar enchendo a cada ano.

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