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Blog do Marcelo Alonso

Duelo de lendas: Há 10 anos Minotauro vencia Couture em seu quintal

De um lado, o único peso-pesado a conquistar o título de quatro organizações diferentes (RINGS, WEF, PRIDE e UFC); do outro, o único a conquistar quatro cinturões do UFC em duas categorias diferentes.

Como se não bastassem os títulos, ainda sobravam diversas outras narrativas para impulsionar as vendas da luta principal do UFC 102 entre Rodrigo Minotauro e Randy Couture: jiu-jítsu x wrestling, Brasil x Estados Unidos, campeão x campeão, Leão Velho (46) x Leão Novo (33),  Lenda x Lenda. Não por acaso, 14 mil torcedores lotaram as dependências da Rose Garden Arena em Portland, naquele 29 de agosto de 2009, para apoiar o maior ídolo local, Randy Couture.

Minotauro usou seu boxe para colocar Couture de costas no solo

Depois de um período conturbado, marcado por várias contusões, culminando na perda do cinturão interino do UFC para Frank Mir (UFC 92 em dezembro de 2008), Minotauro sabia que uma vitória sobre o Capitão América seria muito importante para colocá-lo de volta no caminho do título e, de quebra, dar um cala-boca em boa parte dos fãs e imprensa que, por conta de uma série de contusões, já começavam a aventar sua aposentadoria.

Pressionado, mas ciente que ainda tinha muita lenha pra queimar, o baiano não economizou e assim que a luta foi marcada se mudou para os EUA onde fez três meses de camp em San Diego na academia de Brandon Vera. Com a ajuda de Fábio Maldonado, Junior Cigano (que enfrentaria Cro Cop no mês seguinte), Rafael Feijão, Anderson Silva e dos treinadores Ramon Lemos, Luiz Dórea e Luiz Alves, Minotauro se dedicou 100% aos treinos e voltou a sua melhor forma.

Mas apesar de estar muito bem treinado, o momento que vivia acabou influenciando na sua calma habitual. “Nunca vi o Rodrigo ter insônia na noite antes da luta, como teve ontem”, me disse tenso no café da manhã no dia da luta o seu “amuleto” Luiz Alves, treinador de Muay Thai de Rodrigo desde os tempos do Pride.

Lembro que a vaia ensurdecedora na entrada do brasileiro me impressionou. Só tinha visto algo parecido, na luta entre Amaury Bitetti e Don Frye (UFC 9), onde toda a arena gritava “USA! USA!”. 

Mas quando a porta do Octógono se fechou, a regência do público ficou por conta dos protagonistas. Ciente de que levar Minotauro para o solo não seria um bom negócio, o wrestler veio preparado para decidir a luta em pé, buscando nocautear o baiano já no primeiro round, conectando dois bons golpes e saindo na frente. Mas quando restavam pouco mais de 2 minutos para o fim desta primeira etapa, o brasileiro acertou um bom golpe de direita e derrubou o adversário. Minotauro fechou o triângulo de mão, mas Couture conseguiu escapar. Com ambos os lutadores novamente em pé, o norte-americano acertou uma boa sequência no brasileiro, que sentiu os golpes.

Minotauro usou seu boxe para colocar Couture de costas no solo

Logo no início do segundo assalto, Minotauro acertou um ótimo cruzado no adversário. Mas Couture reagiu em seguida, levou o brasileiro ao chão e, por cima do rival, o castigou com uma série de golpes na cabeça. No momento em que a luta parecia se complicar para o brasileiro, ele conseguiu reverter a posição, chegando às costas do norte-americano, tentando novamente o estrangulamento, mas o rival conseguiu escapar mais uma vez. 

O último minuto do terceiro round foi um resumo deste combate: Minotauro aplica um knockdown, pega as costas de Couture tentando estrangulá-lo, o americano consegue escapar, cai na sua guarda acertando alguns golpes perigosos. Quando a torcida já começava a comemorar a reação, Minotauro raspa e cai montado, até o gongo soar.

Um gran finale que carimbou a vitória unânime do brasileiro. A torcida de Couture chegou a ensaiar uma vaia, mas mudou de idéia ao ouvir o discurso respeitoso de Rodrigo. “O Couture sempre foi um dos meus ídolos do esporte. Desde 1997 acompanho a carreira dele. Por saber o quão bom ele era, que treinei tanto para dar o meu melhor hoje pra vocês. Obrigado Portland”, finalizou o baiano transformando as vaias da torcida adversária em aplausos efusivos.

Mais tarde, Dana White fez questão de abrir a coletiva de imprensa agradecendo aos dois e reconhecendo: “Definitivamente esta luta está entre as 10 melhores lutas que vi nestes 16 anos de UFC”. Além do bônus de Luta da Noite, a batalha entre as lendas foi considerada a melhor luta do ano de 2009.

Na mesma noite lutaram outros quatro representantes brasileiros: Thiago Silva, Demian Maia, Gabriel Napão e Marcus Aurélio. Thiago se recuperou da derrota para Lyoto, nocauteando Keith Jardine no 1º round; Demian Maia, que ainda lutava no peso-médio, sofreu o único nocaute de sua carreira em 21 segundos para Nate Marquardt; Gabriel Napão nocauteou Chris Tuchscherer; e Marcus Aurélio perdeu na decisão para Evan Dunham.

Curiosamente dois anos depois deste UFC 102, no dia 27 de agosto de 2011, Minotauro faria outra luta histórica, marcada pela superação, na primeira edição do UFC Rio, contra Brendan Schaub.