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O Esporte

Os 4 campeões norte-americanos do UFC que começaram no Brasil

Hoje, o sonho de qualquer lutador de MMA é fazer parte do plantel do UFC. Considerado a maior potência do esporte no mundo, os Estados Unidos tem dezenas de shows que servem de plataforma, não só para os talentos locais mas também para estrangeiros que sonham em chegar ao maior evento do mundo. Na atual conjuntura seria impossível imaginar um lutador americano vindo lutar num evento brasileiro com o objetivo de chegar ao maior evento do mundo. Mas nem sempre foi assim.

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No final da década de 90, quando os atletas sonhavam em chegar ao PRIDE ou UFC, lutar num evento no berço do Vale-Tudo era uma espécie de carimbo de qualidade (e muita coragem), afinal nada poderia ser pior do que vencer três oponentes numa noite nas regras adotadas por promoções como IVC, WVC, UVF e Brazil Open.

Pois Kevin Randleman, Mark Kerr, Chuck Liddell e Dan Henderson fizeram este teste e colheram os louros após enfrentarem alguns dos maiores representantes da luta no Brasil em casa. E a maior prova de que estas experiências foram diferenciais em suas carreiras é o fato de todos eles terem se sagrado campeões do UFC, seja na fase dos torneios (como Henderson e Kerr) ou quando começaram a existir cinturões por categorias (Liddell e Randleman).

Kevin Randleman

Num momento em que seu mentor, Mark Coleman, era considerado o homem mais temido do mundo após atropelar cinco oponentes seguidos vencendo dois torneios seguidos (UFC 10 e UFC 11), o wrestler da 1ª divisão norte-americana Kevin Randleman (1,78m, 109 Kg) veio ao Brasil se testar nas regras do Vale-Tudo fazendo três lutas numa noite no Universal Vale Tudo Fighting 4 no Rio de Janeiro. Como a organização não conseguiu chegar a um acordo com nenhum grande nome do jiu-jítsu, Luta-Livre ou muay thai, o discípulo de Coleman venceu o torneio sem dificuldades, atropelando Luis Carlos “He-Man” e os compatriotas Geza Kalman e Dan Bobish.  “O Rio não é a terra do jiu-jítsu, por que não veio ninguém? Espero que na próxima edição tenha algum representante com coragem para tentar tirar o meu cinturão”, me disse Randleman ao final do show. Obviamente a polêmica declaração publicada na revista Tatame #16 despertou o brio dos lutadores locais que, cinco meses depois, entrariam em peso no UVF 6. Desta vez Randleman finalmente teria a experiência de lutar contra os melhores locais, além de enfrentar a fúria de cinco mil torcedores ensandecidos que lotaram a casa de shows Metropolitan, uma espécie de La Bombonera do Vale-Tudo carioca na época. Depois de vencer Ebenezer Braga numa guerra de 20 minutos da qual saiu deformado, Randleman lutou 11min24s com o faixa-preta Mario Sukata, o qual venceu por nocaute técnico. Na final rolaria o tão aguardado clássico wrestling x jiu-jítsu, pela primeira vez em igualdade na balança.

Representante da Carlson Gracie, Carlão Barreto também chegou bastante machucado a final após batalhas com Geza Kalman e Dan Bobish do outro lado da chave. E a guerra final durou 22 minutos e acabou vencida por Carlão, que conseguiu apagar o americano com um triângulo, roubando seu cinturão.

Três meses depois, Randleman voltaria ao Brasil para lutar seu terceiro torneio seguido no Brazil Open Fight (mesma noite da estreia de Dan Henderson). Randleman venceu a primeira luta mas na final, num clássico entre wrestlers norte-americanos, acabou nocauteado pelo gigante Tom Erikson.

Na sequência finalmente Kevin chegaria ao UFC vingando seu mestre Coleman duas vezes ao vencer Maurice Smith (UFC 19)  e Pete Williams (UFC 23). Esta vingança sobre Williams, aliás, lhe rendeu o título dos pesos-pesados do UFC. Depois de defender o cinturão com vitória sobre Pedro Rizzo (UFC 26), Randleman perdeu o título para Randy Couture (UFC 28).

Em 2001, Kevin decidiu passar a lutar na divisão dos meio-pesados onde protagonizou grande clássicos no UFC (como contra Chuck Liddell e Renato Babalu) e no PrRIDE, quando voltou a alternar entre pesados e meio-pesados, fazendo lutas históricas com alguns dos maiores nomes da história do esporte como Fedor, Cro Cop, Shogun, Ninja, Sakuraba e Quinton Rampage.

No dia 11 de fevereiro de 2016, esta grande lenda do esporte faleceu aos 44 anos em decorrência de um ataque cardíaco deixando um legado de lutas antológicas e uma ligação muito próxima com o MMA brasileiro.

Mark Kerr

Outro grande campeão do UFC catapultado ao mundo pelo Vale-Tudo brasileiro. Mark Kerr (1,90m, 115 Kg) foi mais um representante da 1ª divisão do wrestling norte-americano que apareceu na esteira do sucesso de Mark Coleman.

Trazido pelo empresário brasileiro Frederico Lapenda para estrear na 3ª edição do seu World Vale-Tudo Championship realizado no hotel Maksoud Plaza em São Paulo em janeiro de 1997, Kerr atropelou Paul Varelans e o capoeirista Mestre Hulk em menos de cinco minutos, usando seu ground and pound para vencer na decisão a lenda do jiu-jítsu Fábio Gurgel na grande final, numa guerra de 30 minutos que foi amplamente noticiada em veículos do mundo todo. Principalmente pela diferença de quase 30 kg entre os dois finalistas.

Seis meses depois da consagração no Brasil, Kerr seria apresentado aos fãs americanos pelo announcer do UFC como “Máquina de bater”. Apelido curiosamente retirado da chamada de capa da revista Tatame sobre o WVC 3 e muito bem justificado por ele em duas edições subsequentes do evento onde venceu quatro oponentes em menos de cinco minutos faturando dois torneios seguidos do UFC (14 e 15) e tendo seu passe imediatamente comprado pelo PRIDE japonês.

Entre os anos de 1997 e 2000, “The Smashing Machine” foi indiscutivelmente o peso-pesado mais temido do mundo. Mas, infelizmente, seus vicio em opióides e anabolizantes começou a afetar sua saúde física e mental e o lutador entrou em decadência perdendo 11 das 14 lutas que fez. Em 2003, a HBO levou ao mundo o documentário “The Smashing Machine” mostrando os dois lados da história de um dos maiores campeões do MMA e abrindo os olhos da sociedade norte-americana para a importância de combater o seríssimo problema de vício em analgésicos e anabolizantes.

Dan Henderson

Daniel Jeffery Henderson foi um dos mais condecorados wrestlers norte-americanos a migrarem para o MMA ainda nos tempos do Vale-Tudo. Curiosamente, em seus 19 anos de carreira, Hendo fez 47 lutas de MMA, destas 22 foram disputadas contra brasileiros (14 vitórias do norte-americano e apenas 8 derrotas).

E esta história começa no Brasil em 1997 com uma surpreendente vitória num torneio até 80 Kg onde os favoritos eram os já consagrados Crézio de Souza (Carlson Gracie) e Pelé Landi (Chute Boxe). Depois de surpreender o favoritíssimo Crézio na 1ª luta com socos na guarda, Hendo finalizou o irmão de Kevin Randleman, Eric Smith, que havia surpreendido Pelé na decisão.

O show no Brasil rendeu ao ex-membro do time olímpico nacional de luta greco-romana um convite imediato para o torneio UFC 17 onde se sagrou campeão do torneio de “leves” (até 90 Kg) após vencer na decisão Allan Góes e Carlos Newton em duas guerras de 15 minutos.

A partir desta vitória, Hendo decide se arriscar entre os pesados no mercado japonês lutando no torneio Rings King of Kings onde se sagrou campeão vencendo cinco lutas e faturando 200 mil dólares. Os brasileiros Rodrigo Minotauro e Renato Babalu seriam seus oponentes na semifinal e final, respectivamente.

Depois desta vitória no Rings, Hendo seria contratado pelo PRIDE, onde protagonizou lutas históricas com Wanderlei Silva, Ricardo Arona, Murilo Bustamante, Vitor Belfort e tantos outros ícones do esporte.

Em 2005, Dan Henderson venceria o Grand Prix dos médios do PRIDE enfrentando Murilo Bustamante.

Depois, bateu na trave duas vezes em tentativas de conquistar o tão sonhado cinturão do UFC. Primeiro perdendo para Quinton Rampage na divisão dos meio-pesados (2007) e depois para Anderson Silva na divisão dos médios (2008).

Mas, sem dúvida alguma, 2011 foi o ano mais marcante da vida de Dan Henderson. Depois de nocautear Rafael Feijão e conquistar o cinturão meio pesado do Strikeforce, Hendo chocou o mundo ao nocautear Fedor Emelianenko no 1º round e escrever seu nome na história do UFC ao vencer Mauricio Shogun numa luta que acabaria entrando no Hall da Fama do esporte (UFC 139).

Em 2016, Hendo colocou um ponto final em sua maravilhosa carreira tentando pela última vez conquistar o cinturão do UFC, mas acabou sendo derrotado por Michael Bisping na luta que mereceu o bônus de melhor combate do UFC 204.

Chuck Liddell

Um dos maiores exemplos do peso dos eventos brasileiros no mercado mundial ao final dos anos 90 é Chuck Liddell. Três meses depois de fazer sua estreia no UFC 17 vencendo Noe Hernandez na decisão, numa luta que não teve nenhuma repercussão, Liddell resolveu vir ao Brasil se testar no evento mais real e temido da época, o International Vale Tudo Championship (IVC) enfrentando Pelé Landi, que já tinha 15 lutas (13 vitórias) e vinha sendo apontado entre os melhor lutadores do mundo até 84 Kg em todos os rankings.

Como Liddell lutava até 93 Kg, a idéia inicial do promotor Sérgio Batarelli seria casá-lo com Wanderlei Silva, mas como Mike Van Arsdale havia vencido o último torneio, Batarelli achou melhor que Wanderlei lutasse pelo cinturão com o wrestler deixando o novo talento americano para Pelé.

Os dois travaram uma guerra de 30 minutos que acabou sendo vencida por Liddell. A vitória sobre Pelé jogou o norte-americano num outro patamar no evento.

Depois de vencer Kevin Randleman, Murilo Bustamante, Vitor Belfort e Renato Babalu, Liddell fez sua primeira disputa de cinturão com Randy Couture. Foi nocauteado no 3º round, mas perseverou e depois de nocautear o ex-parceiro de treinos Tito Ortiz, conquistou o direito de lutar a revanche com Randy. Desta vez, porém, devolveu o nocaute em apenas dois minutos e conquistou o título de campeão do UFC, o qual defenderia em quatro oportunidades. Depois de perder o título para Quinton Rampage no UFC 71 (2007), Liddell faria mais cinco lutas até se aposentar em 2010.

* Texto e imagens de Marcelo Alonso.

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