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Blog do Marcelo Alonso

UFC Brasília e as lições que podem melhorar a arbitragem no MMA

Estamos terminando o primeiro trimestre de 2020 e chama a atenção a quantidade de decisões controversas que marcaram boa parte das oito edições do UFC realizadas até aqui em 2020. Dominick Reyes x Jon Jones; Dan Hooker x Paul Felder; Romero x Adesanya foram só alguns dos casos mais emblemáticos.

Na maioria deles houve juízes pontuando de maneira totalmente discrepante, o que traz a tona um fato preocupante: um desnível claro entre o crescimento técnico dos atletas e dos juízes credenciados pelas 98 Comissões Atléticas reguladas pela ABC. Algo que precisa urgentemente ser debatido, até porque quem acaba pagando a conta é o esporte e a própria organização, pois a grande maioria dos fãs, principalmente os brasileiros, não compreendem que o UFC não tem absolutamente nenhuma ligação com a arbitragem, totalmente gerida por órgãos públicos (Comissões Atléticas) que ficam abaixo do guarda-chuvas da ABC (entidade que regula as 98 Comissões).

Olhando o copo pelo lado meio cheio, não há como negar que estas polêmicas em série tem gerado um debate positivo na comunidade do MMA. Vi colegas sugerindo a colocação de cinco juízes, outros pedindo a abertura das pontuações (scorecards) entre os rounds e quase todos clamando por tolerância zero para juízes lambões, além de sugerir uma presença maior de ex-lutadores entre os quadros das Comissões Atléticas, que como sabemos, são amplamente dominadas por juízes originários do boxe.

Pessoalmente considero que todas as sugestões devem ser avaliadas, mas tendo em vista a enorme burocracia para implantação de qualquer nova diretriz nas comissões, penso que uma única mudança impactaria o esporte imediatamente, sendo bem simples de ser adotada: a meritocracia na escolha de juízes e árbitros.

No futebol, não são só os melhores árbitros que vão a Copa do Mundo? Por que não fazer o mesmo no UFC, pelo menos nos cards principais? Basta usar os dados estatísticos dos juízes e árbitros que mais acertam.

No padrão atual não adiantaria nada, por exemplo, colocar cinco juízes desatualizados de Comissões Atléticas sem expressão e que não se credenciaram em um dos três cursos oficiais (ministrados por Big John McCarthy, Herb Dean ou Marc Goddard) e muito menos participaram de cursos de reciclagem anuais, julgando lutas dificílimas como Jones x Reyes, Adesanya x Romero e Zhang x Joanna. Em lutas como estas, colocar cinco juízes certamente só transformaria os placares em loteria.

Ex-lutadores de MMA como juízes

Seria interessante que managers e lutadores começassem a pressionar comissões para contratar mais profissionais recém-aposentados do MMA. Não é possível que em pleno 2020 um esporte que estabelece o mesmo peso para pontuar striking e grappling efetivo, seja julgado em sua esmagadora maioria por profissionais do boxe. Mas vale ressaltar que, por si só, esta não seria uma solução se os profissionais não se atualizarem. Tenho visto nas mídias sociais muitos lutadores pontuando como no passado, ou seja, sem levar em conta as nova diretrizes de 10x7 e 10x8 e, principalmente, a importância maior ao golpe definitivo, que cause dano na definição do round e menos importância a estatísticas de “quem tocou mais”. Ou seja, só ser ex-lutador de MMA não é suficiente para ser um bom juiz atualmente. Mas indiscutivelmente o quadro ideal seria aumentar o número de ex-lutadores de MMA entre os juízes e obrigá-los a se atualizar para que possam julgar de acordo com as novas diretrizes do esporte.

Minha seleção dos 10 melhores juízes e árbitros

Sabemos quanto tempo demora para que novas normas sejam aprovadas pela ABC e adotadas por todas as comissões, mas o MMA tem pressa. A melhor maneira de reduzir imediatamente a porcentagem de erros e, principalmente, as discrepâncias nas pontuações, bastaria que as comissões atléticas escolhessem os juízes e árbitros mais atualizados, sempre presentes nos cursos de reciclagem, e que, não por acaso, são estatisticamente os que tem a maior porcentagem de acerto. Baseado nisso, não é difícil escalar uma seleção dos 10 melhores. Os juízes que têm melhores índices são:  Sal D'Amato (EUA), Derek Cleary (EUA), Michael Bell (EUA), Mark Collett (Inglaterra), Guilherme Bravo (Brasil), Dave Tirelli (EUA), Ben Cartlidge (Inglaterra), Michael Bell (EUA) Howard Hughes (Inglaterra), Ron McCarthy (EUA). Com relação aos árbitros, como o mestre dos mestres Big John se aposentou e hoje só ministra cursos, a seleção dos melhores hoje teria que incluir: Marc Goddard (Inglaterra), Herb Dean (EUA), Jason Herzog (EUA), Leon Roberts (Inglaterra), Osíris Maia (Brasil), George Allen (USA), Mike Beltrán (EUA), Jerin Valel (Canadá), Kevin MacDonald (EUA), Keith Peterson (EUA).

Na realidade, o calcanhar de Aquiles está mesmo na seleção de juízes. Principalmente pela necessidade da escalação homogênea de três bons profissionais por luta.

A importância das punições

Se as comissões passassem a escalar apenas juízes com certificados oficiais, é óbvio que os profissionais despreparados literalmente “correriam atrás do prejuízo”, uma vez que, assim como atletas, juízes e árbitros recebem por empreitada.

Uma outra medida simples para melhora imediata do nível dos julgamentos seria estipular uma regra clara com relação a frequência e gravidade dos erros destes profissionais, passando a implementar sanções, como suspensão temporária e obrigatoriedade de participar de cursos de reciclagem, em casos recorrentes.

Instruindo fãs e imprensa

Levando em conta as várias atualizações pelas quais o esporte tem passado nos últimos anos, um outro ponto que ajudaria muito aos fãs a entenderem melhor o julgamento seria as comissões permitirem que juízes e árbitros explicassem suas decisões publicamente para a imprensa. Tenho visto muita gente criticando decisões atuais e crucificando árbitros pensando o esporte em cima das regras antigas e os profissionais não tem nem o direito de se defender. Esta troca seria, sem dúvida, uma excelente maneira de reeducar e atualizar fãs, jornalistas, treinadores e lutadores sobre as mudanças na leitura do esporte.

Pontuações abertas entre rounds

Apesar de não considerar um ponto essencial para melhora da arbitragem, também vejo com bons olhos a idéia de permitir que os scorecards sejam divulgados aos corners durantes os intervalos. Esta iniciativa permitiria, ao menos, que o lutador respondesse na prática os resultados controversos durante a luta. Em rounds extremamente parelhos, tenho visto muitos treinadores informarem erradamente a vitória para seus atletas, que passam a lutar de acordo com a informação, quando poderiam estar buscando definir a luta. 

Se assim como lutadores, juízes e árbitros são remunerados por luta, é óbvio que se os melhores forem reconhecidos e melhor remunerados, isso obrigará todos os colegas a se atualizarem anualmente em cursos. É até curioso que no país da meritocracia e da lei da oferta e da procura, este mecanismo já não tenha sido implantado. Agora cabe aos lutadores e managers pressionarem as comissões para escolherem só os melhores profissionais em suas lutas.

O exemplo do UFC Brasília

Um bom exemplo de que a meritocracia é o melhor caminho para reduzir erros de julgamento foi o UFC Brasília. Mesmo já tendo uma equipe extremamente preparada, que é obrigada a fazer cursos anuais de atualização, a Comissão Atlética Brasileira fez questão de trazer alguns dos melhores quadros do esporte (juízes e árbitros) na atualidade para compor com seu time e evitar ter só profissionais brasileiros julgando lutas de brasileiros. O resultado disso foram nove lutas decididas sem nenhuma discrepância entre os juízes. É bem verdade que a decisão entre Formiga e Moreno, vencida pelo mexicano, gerou algum debate (pessoalmente achei que Formiga venceu dois rounds), mas revendo o combate não há como negar que foi uma luta muito parelha que permite um longo debate sobre striking e grappling efetivo. Não há como negar que a média de assertividade das decisões deste evento foi a melhor do ano até agora.

Brandon Moreno CT

Obviamente isso não significa a extinção completa dos julgamentos polêmicos.

Se no futebol, na nova era do VAR, impedimentos e faltas continuam alimentando os debates esportivos, seja nas resenhas televisivas ou nas mesas de bar, imaginem a complexidade de avaliar critérios muito mais subjetivos como número de golpes conectados, contundência, dano, striking efetivo, grappling efetivo que, obviamente, dependem da avaliação pessoal de cada juiz e de seu ângulo de visão.

Não tenho dúvidas de que escolher os profissionais mais bem avaliados e atualizados é um caminho essencial para a evolução do esporte. Mas não se enganem! Discussões sobre arbitragem sempre farão parte da rotina deste esporte, principalmente em lutas decididas por um round onde houve equilíbrio de ações.

No final, sempre valerá a máxima “se você quer a vitória, então não deixe nas mãos dos juízes”, mas há de se reconhecer que na atual conjuntura, diante da disparidade existente entre o nível dos atletas e juízes, as comissões atléticas precisam fazer sua parte realizando, o quanto antes, as mudanças necessárias para reduzir erros e permitir que o MMA continue em seu trilho evolutivo.

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